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Mundo do Vinho

16/02/2016

Sutileza Toscana

 

Por Alexandra Corvo - Folha de São Paulo


“É fácil se perder pela Toscana. As estradinhas são estreitas e curvilíneas, e a paisagem não muda tanto. Acho que acontece comigo toda vez que vou porque quero me perder entre os arbustos de manjericão, alecrim e orégano, em volta das vilas e construções medievais e nos bares de vinho cheios de gente falando e rindo alto.

É normal também se perder nos estilos de vinho, tamanha é a variedade. Dentre os brancos, o mais famoso é o Vernaccia di San Gimignano. Esta foi a primeira denominação de origem da Itália. Vernaccia é a uva, e San Gimignano é um pequeno e bem conservado povoado medieval, patrimônio mundial da Unesco. Os vinhos são brancos delicados, meio cremosos, ótimos para a comida.

Chianti Classico revolucionou, nos anos 1980, seus vinhos com o projeto Chianti Classico 2000. A ideia era chegar, em 20 anos, a uma imagem totalmente positiva da zona pela qualidade da bebida. Conseguiu. Eles são elegantes e delicados, extremamente expressivos no nariz.

Sangiovese é a principal variedade da Toscana. É antiquíssima e, por isso, tem vários clones (mesmo DNA, mas algumas variações). O mais famoso é Brunello, que dá nome a outra DOCG: Brunello di Montalcino de onde vem a versão mais densa, tânica e encorpada da Toscana.

A sangiovese pode aparecer sozinha no rótulo (e a temos visto bastante assim), resultando em vinhos frutados, delicados, fáceis de tomar e de bom preço.

Se há algo em comum aos vinhos toscanos, é a de sutileza. Fora os Brunellos, com seu peso característico, são flexíveis, ótimos para acompanhar a comida ou para bebericar."

La Colombina Brunello di Montalcino DOCG
Estilo moderno, com notas de ameixa seca e baunilha. Encorpado, mas elegante, denso com final achocolatado.


Original: https://alexandracorvo.wordpress.com/2016/02/12/folha-de-sao-paulo-sutileza-toscana/



01/02/2016

A juventude de Montalcino

 

Gianfranco Bomba, de La Velona, é um jovem defensor do terroir e das tradições que fizeram com que os Brunello di Montalcino se tornassem um sucesso no mundo, por Arnaldo Grizzo em 14 de Agosto de 2013 às 00:00.

 

O nome Brunello di Montalcino hoje é tão comum para os enófilos que mal parece que sua verdadeira fama teve início apenas nos anos 1990. Apesar de os primeiros Brunello terem sido engarrafados em meados do século XIX, foi somente na última década do milênio passado que esse vinho explodiu mundo afora, virando sinônimo de excelência.

A DOCG (denominação de origem controlada e garantida) Brunello de Montalcino só surgiu no início da década de 1980, ajustando-se até o final dos anos 1990, para melhor controlar seu boom. Em meados dos 80, um empreendimento imobiliário decidiu investir na região – ainda não muito famosa –, com o intuito de comprar terras e revendê-las. O pai do jovem Gianfranco Bomba estava à frente dessa empresa na época. O garoto, então com apenas 19 anos, vindo de Nápoles, transferiu-se para Montalcino para ajudar a gerir a propriedade e lá se apaixonou pelo trabalho na vinha.

“A azienda, no começo, tinha sete “poderi” (fazendas), 150 hectares e um castelo”, conta Bomba, sobre a região de La Velona, que fica entre Castelnuovo dell’Abate e Monte Amiata Scalo, na zona sudeste de Montalcino. O gosto pela vitivinicultura fez com que, em 1993, ele resolvesse dar início a uma pequena produção de vinhos e logo se formou a Azienda Agricola La Velona, que hoje conta com 12 hectares produzindo Sangiovese Grosso – ou Brunello, como esse clone é chamado por lá.

Bomba é responsável por muito do trabalho feito na cantina, com assessoria do enólogo piemontês Pietro Rivella – ex-Banfi e há mais de 40 anos consultor de diversas vinícolas na Toscana –, e também pelas vendas. Ele defende o vinho de Montalcino e mais especificamente os da região onde está inserido (menos elevada do que as demais na comuna, o que, segundo ele, faz com que os vinhos sejam melhores). Os Brunello – vinhos que só podem ir ao mercado depois de cinco anos da colheita – são trabalhosos, mas ele acredita que são os que melhor representam a região, por ser autóctone. Sua concessão às uvas internacionais é pequena: “Menos de meio hectare de Merlot, apenas quatro fileiras”.

 

Como começou La Velona?

La Velona foi comprada em 1985, quando Montalcino ainda não era tão conhecida. O verdadeiro boom da região começou na safra de 1991. Em 1985, havia uma minúscula produção de Brunello. Eram apenas 10, 15 vinícolas importantes naquela época. Em 1991, nasceram muitas. Foi quando grandes produtores compraram terras e passaram a produzir vinhos de qualidade por lá. A nossa vinícola, no começo, tinha sete poderi, 150 hectares e um castelo. Ela nasceu como uma iniciativa empreendedora para comprar e revender o terreno. Em 1993, decidiu-se iniciar uma pequena produção de vinho. A nossa primeira safra de Brunello foi a de 1998, que, como se sabe, só pode ser vendido depois de cinco anos da colheita.

 

"Brunello não é um vinho do dia a dia. É um vinho de meditação. É um vinho que precisa de uma cultura, de conhecimento para apreciar."

 

A Sangiovese é a uva típica da Toscana e produz vinhos em toda a região, desde Chianti, Vino Nobile de Montepulciano, até Brunello. Quais as principais diferenças entre esses vinhos, já que partem de uma mesma variedade?

A região da Toscana é uma das maiores da Itália e tem uma grande história. Cada zona tem várias DOC e DOCG. Mas são todas diferentes. A região de Montalcino é muito limitada no sentido de que Brunello só pode ser produzida naquela comuna. Nela há uma influência de terroir muito diferente de Chianti ou Nobile, por exemplo. Pois Montalcino fica a 30 quilômetros do mar, há uma grande influência marítima e muito vento. Além disso, é a única região na Toscana que vem produzindo Sangiovese “in purezza” regularmente. Brunello e Rosso são somente Sangiovese. Em Chianti, por exemplo, há uma predominância de Sangiovese, mas com Merlot e Canaiolo também. Fora isso, o Sangiovese produzido em Montalcino é um clone diferente de Chianti e Nobile, pois a baga é grande. Leva o nome de Brunello, pois é diferente. Em Chianti, ela é muito menor e com um sabor totalmente diverso. Em Brunello, é maior, mais encorpado, com mais cor e acidez. Isso significa dizer que é verdade que há vários vinhos na Toscana que podem parecer similares, mas cada região tem sua tipicidade e particularidade, pois cada um tem seu terroir.

A que se deve a fama “repentina” dos vinhos de Brunello di Montalcino, que até meados do século passado não eram tão comentados entre os consumidores e agora são requisitados no mundo todo?

Em Brunello, há um consórcio com regras muito atentas, pois produzir um vinho só de Sangiovese é muito difícil. Em Chianti e Nobile, onde acrescentam algo de Merlot ou Cabernet, há a possibilidade de ajustar, de criar, de modificar o vinho. Em Montalcino, sendo só Sangiovese, há uma qualidade a mais, há uma elaboração maior e também mais atenção. Brunello envelhece por cinco anos. É o único vinho na Itália que só pode ser colocado à venda depois de tanto tempo. Isso é uma coisa que faz com que os consumidores amem, pois é resultado de um grande trabalho. E pode-se dizer que é uma produção pequena, pois Montalcino é uma vila de 5 mil habitantes, com 200 vinícolas de Brunello – e é importante salientar que só pode ser engarrafado ali. Depois disso, creio que o sucesso do Brunello se deu porque, nos anos 60, 70, 80, esse era o vinho que se usava nas grandes ocasiões, na política, nos grandes eventos culturais, e isso fez com que se tornasse muito importante. E também porque Brunello não é um vinho do dia a dia. Ele tem um custo, é caro – por causa do trabalho. E isso é muito precioso. É um vinho de meditação. É um vinho que precisa de uma cultura, de conhecimento para apreciar.

 

 

 La Velona tem 12 hectares em produção e fica entre Castelnuovo dell’Abate e Monte Amiata Scalo, na zona sudeste de Montalcino

 

Fazer Brunello não deve ser fácil, especialmente devido ao custo de produção...

Temos quatro tipologias de vinhos lá, duas de Sant’Antimo – uma DOC dentro de Montalcino –, e mais Rosso e Brunello. Nas grandes safras, como 2004, produz-se os Riserva, mas em quantidade muito limitada. Nossa produção é de 60 mil garrafas ao ano e os Riserva são 3, 4 mil. O rendimento autorizado por hectare em Sant’Antimo é 9 mil quilos, em Rosso, 8 mil e, em Brunello, 7 mil. Nós, porém, colhemos cerca de 5 a 6 mil para uma melhor qualidade. Fazemos seleção de uva na planta. Envelhecemos em botti esloveno de 50 mil litros. E depois há uma pequena passagem por barrica.

Qual a diferença do seu Brunello para os outros?

Acho que a grande diferença é a localização. Estamos no sul de Montalcino, 250 metros acima do nível do mar. As outras propriedades, ao norte, são muito altas, 650 metros acima do mar. Nós vemos tudo, vemos o mar, temos bons ventos, boas temperaturas. Ao norte, a noite é mais fria, chove mais, pois são 500 metros de diferença. Quando houve o boom, plantou-se vinhedo por todos os lados, até em terrenos não muito bons, pois o mercado pedia. Posso dizer que a zona de Castelnuovo dell’Abate e Monte Amiata Scalo, onde estamos, que agora tem 20 vinícolas, para mim é a melhor para produzir Sangiovese em Brunello, pois é a parte mais baixa. Os melhores vinhos vêm de 250 a 300 metros acima do nível do mar; os mais altos têm mais variação térmica.

É possível hoje plantar mais vinhedos para fazer Brunello?

Pode-se comprar o direito de fazer Brunello. Vou ao meu vizinho e compro o direito dele – 1 hectare talvez – e declaro que agora meu vinhedo de 1 hectare é Brunello. O consórcio delimita o número de vinhedos. Quando compramos a propriedade, havia 150 hectares, mas muito era de floresta. Ainda temos muita floresta, cerca de 33 hectares, mas não podemos passar para vinhedos. Temos 4 hectares de Brunello. Se quero outros, preciso comprar de alguém, não posso mais pedir ao governo. Tudo está sendo feito para melhorar a qualidade.

 

"Na Toscana, há um grande trabalho de mão-de-obra na vinha. No Piemonte, há muito mais precisão na cantina. No Piemonte, eles são belos trabalhadores de cantina, melhores enólogos. Na Toscana, é o terroir."

 

Quanto custa?

Um hectare em Brunello custa 300 mil euros. Rosso custa 150 mil. Sant’Antimo, 80, 90 mil. Em produção, com uva.

Quais as principais diferenças entre Rosso e Brunello?

A diferença principal deve-se ao envelhecimento. Brunello precisa ter no mínimo 24 meses de madeira. Rosso apenas seis. O Brunello antes de ser vendido tem que ter, no mínimo, seis meses de garrafa. O Rosso não. É um vinho da mesma uva, mas mais jovem, mais fresco e pode ser vendido depois de dois anos. Outra diferença é a maior seleção de uva. As melhores são destinadas ao Brunello, pois elas fazem com que o envelhecimento seja melhor. É preciso uma boa uva para permanecer por cinco anos. Se há uva ruim e ela fica envelhecendo por cinco anos, só piora. A uva boa melhora. Sendo o Brunello muito caro, o Rosso foi criado para ser um vinho mais acessível. Pode-se começar no mundo de Montalcino bebendo Rosso, um vinho de qualidade com um preço inferior.

"No Brunello, extrai-se muito mais cor, mais álcool. No Barolo, tenta se extrair menos cor e, quando se tem menos cor, há mais perfume. Se você vai muito para a cor, perde no perfume"

Todo ano se produz Brunello, mesmo em safras ruins?

Brunello se produz quase todos os anos. Mas logicamente há exceções. Em 2002, que foi uma safra de muita chuva, de 200 vinícolas, apenas 70 produziram Brunello. As outras desclassificaram para Rosso. Nós não produzimos Brunello, mas mais Rosso. Para os consumidores, há sempre uma expectativa pelo Brunello, então, em uma safra ruim, alguém consegue se recuperar fazendo uma seleção melhor, mas, se a safra é muito feia, chuvosa, simplesmente não se produz. Por exemplo, há safras que produzimos 25 mil garrafas, mas, em 2002, produzimos 5 mil. Em 2003, uma safra de muito calor e uvas secas, produzimos 7 mil.

Além dos Brunello, outros vinhos famosos na região são os Super Toscanos. Como você vê o uso das uvas francesas na região?

A grande relevância de vinhos franceses na Toscana foi quando surgiram Sassicaia e Ornellaia. No início, a Toscana, assim como todas as partes da Itália, tendia a recuperar os vinhos autóctones. Mas cessaram um pouco devido à grande influência de Sassicaia e Ornellaia. Pensou-se que as uvas francesas eram as ideais para que o vinho fosse de melhor qualidade. De repente, para ter um grande vinho, precisava ter uva francesa. Mas os produtores italianos sempre permaneceram muito ligados ao próprio território. Então, uma empresa pequena, com venda limitada dentro da Itália, não enfrenta esse problema. Mas para empresas que têm como preocupação principal o mercado internacional, isso tende a ser diferente. Os americanos amam esses vinhos com Merlot, pois são mais elegantes, perfumados. Você toma Brunello, é um vinho que tem corpo, potência, com perfumes diferentes, tânicos, mas, para um entendedor, é um vinho de qualidade. Um consumidor comum, ao comprar uma garrafa de Brunello, não compreende esse tipo de produto. Merlot, Syrah, Cabernet são vinhos mais... O mercado trouxe essa mudança, pois havia a demanda dos importadores americanos em ter vinhos italianos de qualidade, mas com um blend francês, para criar produtos mais elegantes e leves. Um Brunello, um Barolo, um Amarone são vinhos autóctones, mas são encorpados, fortes, com grande persistência. Super Toscanos são vinhos mais elegantes, em que se sente mais fruta e isso tende a agradar mais consumidores, pois eles acreditam que entendem melhor o vinho.

Diante das demandas de mercado, o que se deve fazer? Manter-se nas uvas autóctones ou ir para as francesas?

Acho que isso não é a coisa ideal para o vinho italiano, pois creio que um vinho deve ser produzido com toda a autoctonia que pode existir. Sou mais favorável aos vinhos de “purezza”, reais, de uva italiana, de respeito ao terroir. Acho que uma empresa deve criar um produto próprio e levá-lo adiante. Respeito os que se adaptam ao mercado, mas primeiro é melhor trabalhar com um vinho autóctone, e somente com ele, antes do que com o que mercado pede. Isso deveria ser o ideal de uma vinícola. Mas certamente uma empresa precisa se monetizar e então tem que ouvir as demandas de mercado.

Toscana e Piemonte, devido ao Brunello e ao Barolo, são as duas regiões italianas mais comentadas no mundo. O que difere uma da outra?

No meu ponto de vista, de quem ama o vinho e não somente a Toscana, a grande diferença é que na Toscana há uma produção de vinho mais ligada ao terroir, e lá se cria vinhos bons porque o terreno é bom. Na Toscana, diferente do Piemonte, há estações distintas, há primavera e verão muito quentes, e inverno não muito frio. Como local para a produção de uva, o centro da Itália é o melhor, pois, para produzir vinhos de qualidade, é preciso de terra e clima. A Toscana, como clima, não há rival. O Piemonte tem mais tradição, mais elegância. Na Toscana, há um grande trabalho de mão-de-obra na vinha. No Piemonte, há muito mais precisão na cantina. No Piemonte, eles são belos trabalhadores de cantina, melhores enólogos. Na Toscana, é o terroir.

E os vinhos, Barolo e Brunello?

Barolo é um vinho como o Brunello: exprime apenas uma uva, há um grande envelhecimento, um grande trabalho, amo o Barolo. Primeiro, gosto de Brunello, depois Amarone – pois é diferente, particular, um sabor que é preciso de muito conhecimento do vinho para degustar bem –, e então Barolo. Do Brunello, espera-se muita potência, muito corpo, tanino, cor. Do Barolo, espera-se mais elegância no nariz, perfume, menos potência em boca, menos corpo. Um Barolo normal tem 13, 13,5% de álcool, um Brunello tem 14, 14,5%. No Brunello, trabalha-se 20 dias na vinificação, no Barolo, 15, 18 dias. No Brunello, extrai-se muito mais cor, mais álcool. No Barolo, tenta se extrair menos cor e, quando se tem menos cor, há mais perfume. Se você vai muito para a cor, perde no perfume.


Original: 
http://revistaadega.uol.com.br/artigo/juventude-de-montalcino_9354.html#ixzz3yNCbhBFB